11.17.2012

O Morto Prazenteiro


Onde haja caracóis, n'um fecundo torrão, 
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir, 
Onde repouse em paz, onde possa dormir, 
Como dorme no oceano o livre tubarão. 

Detesto os mausoléus, odeio os monumentos, 
E, a ter de suplicar as lágrimas do mundo, 
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo, 
Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos. 

Verme, larva brutal, tenebroso mineiro, 
Vai entregar-se a vós um morto prazenteiro, 
Que livremente busca a treva, a podridão! 

Sem piedade, minai a minha carne impura, 
E dizei-me depois se existe uma tortura 
Que não tenha sofrido este meu coração! 

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães 

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